Arquitetura

Traços de inovação

Menos pressionados pela tradição, jovens arquitetos do DF ganham liberdade para criar e adquirem mais visibilidade no resto do país

Por: Clara Becker | clara.becker@abril.com.br - Atualizado em

Bichos - 2347 - Índice
Bichos - 2347 - Índice (Foto: Michael Melo)

Há quem diga que, no prazo de 100 anos, Brasília se tornará uma cidade-museu e deverá ser visitada de pantufas. Trata-se de um completo exagero, mas que tem sua razão de existir. Ao ganhar forma em pouco espaço de tempo, seguindo um projeto apoiado na racionalidade e nas ideias de um time de notáveis, a capital federal imortalizou em seus traços e em seus principais monumentos o pensamento de uma época. Foi esse legado uniforme e singular que a transformou em ícone mundial de urbanismo e arquitetura, lançando o nome de Oscar Niemeyer como a grande referência nacional desse segmento. Passados mais de cinquenta anos, contudo, o peso dessa tradição ficou mais leve. O gênio que projetou obras como o Congresso, o Palácio Itamaraty, a Catedral e o Teatro Nacional, eclipsando contribuições de tantos outros, deixou de ser motivo de acalorados litígios sobre as pranchetas do Distrito Federal. A nova geração de arquitetos locais beneficia--se da distância temporal e sente-se mais livre para criar sem polarizações. "Esse período pós-Niemeyer deixa os profissionais mais soltos para buscar outros caminhos", afirma Emília Stenzel, autora de 50 Anos de Arquitetura e professora do UniCeub. Os resultados já aparecem no trabalho de escritórios mais recentes, que começam a espalhar seus projetos dentro e fora do quadrado.

VEJA BRASÍLIA conversou com professores e arquitetos consagrados para selecionar alguns destaques dessa nova geração. Formados pela Universidade de Brasília (UnB), eles estudaram durante a retomada da democracia no país e entraram no mercado de trabalho já com maior estabilidade econômica. Começaram fazendo pequenas reformas e hoje são pau para toda obra: projetam de salas comerciais a edifícios, passando por residências e espaços públicos. A sede da empresa Posead, no SIA, e a Fundação Habitacional do Exército são os exemplos mais visíveis. Niemeyer continua sendo uma grande inspiração para esse grupo, mas encabeça uma lista com inúmeras outras referências. "Eles não fazem uma ruptura com a tradição, mas também não reproduzem de forma acrítica. Usam linguagem, forma e tecnologia contemporâneas", diz o professor de planejamento urbano da UnB Benny Schvarsberg. Para ele, o grande desafio dessa turma será preservar o patrimônio atualizando a linguagem. "Esta cidade não é bastarda, tem filiação. Não precisamos viver na memória nem ficar presos ao passado, mas tem de existir um compromisso com essa herança."

Arquitetura - 2400
Arquitetura - 2400 (Foto: Haruo Mikami / Divulgação)

Projeto 1 - Casa Torreão. Teve como ponto de partida a integração da residência com a paisagem. O teto-jardim proporciona conforto térmico durante todo o ano. (Foto: Haruo Mikami / Divulgação)

Arquitetura - 2400
Arquitetura - 2400 (Foto: Divulgação)

Projeto 2 - Casa Tangram. Venceu o prêmio O Melhor da Arquitetura, em 2010. (Foto: Divulgação)

Projeto 3 - Apartamento 212 Sul. A ideia foi recuperar a essência moderna da cidade, tirando todos os excessos, como a parede, e deixando a escada exposta (Foto: Nicolau El-Moor / Divulgação)

Esse é justamente o lema dos sócios quarentões Matheus Seco, Daniel Mangabeira e Henrique Coutinho. Na opinião deles, os princípios modernistas continuam servindo como baliza, mas foram adequados a uma nova compreensão da arquitetura. Os três, que se conheceram na UnB no fim dos anos 90, fundaram a Bloco Arquitetos em 2008. Com uma equipe de treze pessoas e uma média de setenta obras por ano - os projetos vão de reforma de varandas a clubes no condomínio Alphaville -, eles formam um dos principais expoentes dessa nova geração. Vencedores de diversos prêmios, vivem na ponte aérea com o crescimento da demanda de clientes fora do DF. Em abril de 2015, o trio fará as malas para representar o Brasil na Bienal de Arquitetura Latino-Americana, na Espanha. Apenas dois escritórios do país foram selecionados. Para esses sócios, mais do que a forma, a relação com a paisagem e o contexto são fundamentais no trabalho. "Estudamos o ambiente, a iluminação e a ventilação de cada local. Por isso, os projetos nunca ficam iguais. Cada conjunto de terreno e orçamento tem uma solução diferente", diz Mangabeira.

Arquitetura - 2400
Arquitetura - 2400 (Foto: Joana França / Divulgação / Michael Melo)

(Fotos: Joana França / Divulgação / Michael Melo)

Escritório: Atelier Paralelo

Arquiteto: Thiago de Andrade

Projeto: Casa D&P. Iluminação e ventilação naturais foram os princípios básicos que nortearam a construção. Depois da análise dos dados físicos do lugar, decidiu-se onde ficariam os cômodos, voltados para a melhor insolação. O acesso a pedestres está no ponto mais alto e os carros ficam numa espécie de pilotis. Vista e integração com a natureza são aproveitadas pelo amplo deque

Uma maior atenção às condições climáticas do Centro-Oeste e estudos mais detalhados da topografia são avanços de uma vertente que começou com Lucio Costa. O urbanista que desenhou Brasília deu notória importância à inserção da cidade na paisagem que a cercava. Proprietário do Atelier Paralelo, um pequeno escritório na Asa Norte, e presidente da regional do DF do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Thiago de Andrade, de 34 anos, vê nos grandes espaços vazios de Brasília uma liberdade desafiadora para isso. Diferentemente de outras capitais, onde o arquiteto mais revitaliza do que cria, lotes com mais de 1 800 metros quadrados são comuns por aqui e permitem começar do zero. "Temos a responsabilidade de aprimorar a qualidade de vida urbana nos espaços ainda não regulamentados que circundam o Plano Piloto", afirma Andrade. Para ele, é obrigação do profissional entregar o espaço melhor do que recebeu. E superar a expectativa do cliente.

Arquitetura - 2400
Arquitetura - 2400 (Foto: Joana França / Divulgação / Michael Melo)

(Fotos: Joana França / Divulgação / Michael Melo)

Escritório: CoDa (Coletivo de Design e Arquitetura)

Arquitetos: Guilherme Araújo e Pedro Grilo

Projeto: restaurante da Fabrika Filmes. Esse ambiente foi criado para uma produtora de vídeos. O piso de ipê acompanha a parede até o forro, estabelecendo uma continuidade entre os elementos. Uma bancada de silestone amarela contrasta com o fundo. Para ornamentar as paredes, a equipe da revista Samba foi convidada a fazer uma intervenção artística no local

Conforto e aconchego também estão entre as preocupações mais latentes. Aos 29 anos, Pedro Grilo, sócio da CoDa (Coletivo de Design e Arquitetura) junto com Guilherme Araújo, diz que sua geração vive um modernismo amadurecido. Ao mesmo tempo em que as regras rígidas de Le Corbusier - um dos maiores arquitetos do século XX - foram afrouxadas, a exigência com o acabamento interior aumentou. "Hoje trabalhamos tão bem o lado de dentro quanto o de fora", explica Grilo. Seu colega de profissão Éder Alencar, da Arqbr, compartilha essa leitura. "Niemeyer foi muito criticado por ser bonito, mas não funcional. Os dois aspectos são importantes", acredita. Aos 34 anos, ele já trabalhou com Paulo Henrique Paranhos, premiado arquiteto brasiliense, e chama atenção nos concursos. Entre seus projetos vencedores, com diversas coautorias, estão uma praça na UnB, o prédio do Ministério Público da Paraíba e uma igreja no Park Way.

Arquitetura - 2400
Arquitetura - 2400 (Foto: Joana França / Divulgação / Roberto Castro)

(Fotos: Joana França / Divulgação / Roberto Castro

Escritório: Esquadra

Arquitetos: Manuela Dantas e Filipe Monte Serrat

Projeto: Casa M&O. Parceria com o arquiteto Camilo de Lannoy. Como o lote é relativamente pequeno, a estratégia foi promover uma ocupação ao longo de uma das laterais do terreno, abrindo a casa e aproveitando melhor a área. O espaço fluido, de fácil acesso, lembra o conceito de pilotis e das varandas do interior do país, onde há a possibilidade de se sentar e observar o movimento da rua

A afeição a trocas e os projetos coletivos são outros traços comuns dos jovens talentos da área. Não raramente eles se juntam para participar de concursos ou unem forças no desenvolvimento de trabalhos maiores. "Nossa geração é muito aberta à troca de informação e valoriza as parcerias", observa Manuela Dantas, do escritório Esquadra. A globalização e uma consequente pulverização de modelos também contribuem para isso. "Quando entramos na faculdade, tínhamos os grandes mestres como referência. Hoje, você acessa o Pinterest (rede social de compartilhamento de fotos) e descobre um trabalho genial de um cara no interior do Vietnã", diz Filipe Monte Serrat, sócio de Manuela.

Para quem está do outro lado da prancheta, a boa notícia é que esses jovens ainda não cobram fortunas pelas suas etiquetas. A criatividade desses profissionais também se estende a adaptações nos orçamentos. "Nossa clientela não está restrita à elite", diz Igor Campos, que além de sócio do MRGB é professor no UniCeub. O processo de planejamento e obra, contudo, segue longo e trabalhoso (veja o quadro no final da matéria). Um projeto detalhado leva, em média, seis meses para ficar pronto. Seu preço gira em torno de 5% a 10% do valor total estimado da obra. Superada essa fase, o metro quadrado mais simples dessa turma sai a 1 500 reais e pode partir dos 2 000 reais em construções de melhor padrão. Para se ter uma ideia de valores, a Casa Linhares, do Bloco Arquitetos, que ilustra a primeira foto desta reportagem, tem 411 metros quadrados e custou 616 500 reais. A estrutura simples, as paredes sem pintura e o acabamento de concreto suavizaram os números finais. A D&P, do Atelier Paralelo, também teve preço abaixo da média. Com 590 metros quadrados, 300 deles de área interna e 200 de pilotis, saiu por 680 000 reais. Já os 450 metros quadrados da casa M&O, da Esquadra, custaram 950 000 reais aos seus proprietários, sem os armários. É bom lembrar que todos esses valores não incluem o planejamento, cobrado à parte.

A máxima de gastar mais no projeto para gastar menos na obra foi repetida por todos como um mantra. Por mais talentoso que seja o arquiteto, há problemas que todos enfrentam, jovens ou bem experientes. A mão de obra pouco qualificada lidera as queixas. Eles sabem que basta passar uma semana sem visitar uma construção para que ela fuja do desenho original. A burocracia para a aprovação dos projetos nas administrações regionais vem logo em seguida. No que diz respeito à relação com o consumidor, surge, talvez, a maior das dificuldades: os que optam por encarar esse tipo de empreitada ainda representam uma pequena parcela da população. Para o arquiteto Sergio Parada, trata-se de algo que precisa atingir níveis mais universais. "Todos deveriam ter direito a um arquiteto. Desde a casa mais simples até a mais sofisticada precisa de qualidade de vida. Acredito que a nova geração esteja preocupada com esse importante aspecto", diz Parada. Ele lembra, porém, que os talentosos, infelizmente, são minoria. "De maneira geral, ainda temos edificações muito desqualificadas em Brasília."

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Arquitetura - 2400 (Foto: Reprodução / Roberto Castro)

(Foto: Reprodução / Roberto Castro)

Escritório: Beatriz de Abreu e Lima

Arquiteta: Beatriz de Abreu e Lima

Projeto: Concavexus. Realizado em coautoria com Manuela Irlwek e Luca Peralta. Foi projetado por métodos de criação computacional em 2000 na Architectural Association School of Architecture, em Londres. A imagem é um módulo de um edifício elaborado para uma das maiores empresas de engenharia inglesa, a Ove Arup. Um sistema côncavo e convexo permite que a utilização do prédio seja alterada ao longo do tempo

Contribuir com melhorias para nossas construções é o principal objetivo da arquiteta e professora Beatriz de Abreu e Lima. Ela desenvolve projetos de caráter mais acadêmico e experimental. Ao longo dos últimos anos, teve papel fundamental no estabelecimento de uma novíssima vertente na arquitetura nacional. Seu trabalho busca a conexão entre concepções e práticas de um projeto e o mundo digital. "Ela retoma fortemente a tradição de vanguarda da arquitetura da capital, algo que já rendeu à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade", diz a professora Emília Stenzel, do UniCeub. Ligada à Architectural Association School of Architecture, em Londres, Beatriz deu o primeiro curso de parametria no Brasil. O método parte de dados funcionais, como a dinâmica de hábitos dentro de uma casa, para chegar a soluções geradas por programas de computação. "Uso todos os softwares que a humanidade já inventou", brinca. Segundo ela, por meio desses programas é possível sair do "preto no branco" e transitar por uma zona cinza, em que reina uma ambiguidade que a arquitetura moderna não permite.

No que depender da nova geração de profissionais, a cidade parece pronta para honrar seu legado e perpetuar seu vigor arquitetônico com novos traços - sem riscos de se transformar num museu. Na opinião de Paulo Mendes da Rocha, um dos grandes arquitetos do país, nada mais natural. "O desenho de uma cidade, de fato, está no futuro. Ela é sempre fruto de uma ideia construída, mas em eterna transformação."

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Arquitetura - 2400 (Foto: VEJA BRASÍLIA)

Fonte: VEJA BRASÍLIA