Literatura

Leitura pela memória

Conheça o trabalho de Alessandra Roscoe, escritora brasiliense que usa a leitura como meio de resgate da memória

Por: Paulo Lannes - Atualizado em

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Alessandra Roscoe, escritora brasiliense, é responsável pela criação do Festival Itinerante de Leitura (Foto: Arquivo Pessoal)

A escritora brasiliense Alessandra Pontes Roscoe fez uma interessante descoberta em seu trabalho no Hospital Universitário de Brasília. Lendo para idosos com Alzheimer, ela percebeu que a atividade contribuía para a recuperação de lembranças dos pacientes. A autora, que já atuava com mediação de leitura para grávidas, crianças e bebês, aproveitou a constatação, ampliou a experiência e decidiu organizar o Festival Itinerante de Leitura (veja a programação mais abaixo). A ideia é fortalecer a leitura também como vínculo afetivo entre os familiares. VEJA BRASÍLIA conversou com a autora sobre o trabalho com idosos. Confira:

VEJA BRASÍLIA - Como você descobriu que a leitura pode ajudar na memória dos idosos?

Alessandra Roscoe - Descobri no susto. Havia sido convidada para ler histórias em um hospital e fui munida de livros infantis - já que era conhecida pelo meu trabalho com crianças. Quando cheguei lá, soube que eram idosos e que estavam em tratamento para amenizar os efeitos do Alzheimer. No meio das obras que levei, havia um conto que escrito sobre o tempo, chamado Caixinha de guardar o tempo. Ele ainda estava rascunhado e dobrado dentro de uma caixinha. Li o texto - que hoje virou livro - e resolvi rodar a caixinha entre eles perguntando o que eles gostariam de eternizar se pudessem guardar o tempo, como faz a personagem da minha história. Todos - sem nenhuma exceção - foram buscar na infância alguma lembrança boa. Um dos participantes relatou, com muitos detalhes, o cheiro do café da avó em dias de chuva, quando ela colocava ao redor dela todos os netos e contava histórias. Lembrou também que cada neto tinha a sua xícara de ágata e que a dele era azul e estava guardada até aquele momento, mais de 60 anos depois. Ao final da dinâmica, um médico me segurou pelo braço e perguntou se eu poderia voltar toda semana, pois o senhor do cheiro de café já não falava há mais de 6 anos e nem sequer reconhecia os familiares. Muito emocionada eu percebi que a infância - e os contos infantis - poderiam ter uma força muito maior do que a que nós imaginamos com aquele grupo.

VEJA BRASÍLIA - Qualquer tipo de livro pode ser usado nesse resgate das lembranças?

Alessandra - Acredito que sim, mas acho que as histórias de crianças - ricas em detalhes e quase sempre costuradas no fio de muitas infâncias - trazem com mais facilidade as recordações, os cheiros e os gostos de um tempo que fica adormecido dentro de cada um de nós.

VEJA BRASÍLIA - Você poderia recomendar alguns títulos?

Alessandra - Pedro e Tina, de Stephen Michael King; Indez, de Bartolomeu Campos de Queirós; Margarida, de André Neves; Um fio de Amizade, de Marília Pirillo; e Gente que mora dentro da gente, do Jonas Ribeiro.

VEJA BRASÍLIA - Qual é a frequência ideal de leitura, para que haja uma recuperação das lembranças?

Alessandra - Eu sou daquelas que acredita que ler nunca é demais. As minhas oficinas de leitura com idosos, que aconteciam semanalmente, duravam uma hora e funcionava perfeitamente.

VEJA BRASÍLIA - Há alguma diferença na leitura para bebês e para idosos?

Alessandra - Acho que no principal - que é o afeto - não. Tanto os bebês quanto os idosos precisam de atenção e carinho. Qualquer um que queira ler precisa ter disposição e uma voz afetiva. Talvez a diferença entre os dois públicos seja apenas uma: o bebê, além do tempo e da voz, muitas vezes quer o colo.

Festival Itinerante de Leitura

O evento é gratuito. Para se inscrever, basta enviar um e-mail com o nome para: alessandraroscoe@uol.com.br

Atenção: há limites de vaga.

Programação:

21/08

8h30 até 12h30 - Centro Social Tia Angelina (Varjão)

Apresentação para bebês:

O fio do invisível construindo memórias e afetos; jogos cênicos a partir do livro Caixinha de guardar o tempo.

Participação:

Alessandra Roscoe, Carlos Laredo e Clarice Cardell

23/08

15 horas até 18 horas - Auditório da Biblioteca Nacional de Brasília (Plano Piloto)

Oficina:

A leitura como vínculo afetivo e construção de memórias

Participação:

Alessandra Roscoe, Ana Paula Bernardes, Marília Pirillo e Tino Freitas

24/08

10 horas - Espaço Roedores de Livros (Shopping Popular da Ceilândia)

Leitura Pública com bebês e crianças

Participação:

Alessandra Roscoe, Jonas Ribeiro e Marília Pirillo

16 horas - Biblioteca Nacional de Brasília (Plano Piloto)

Roda de histórias e cantigas

25/08

10 horas - Taguaparque (Taguatinga)

Leitura pública com idosos

Participação:

Alessandra Roscoe, Jonas Ribeiro e Marília Pirillo

27/09

15 horas até 18 horas - Auditório da Biblioteca Nacional de Brasília (Plano Piloto)

Oficina:

Muitas leituras, infinitas histórias

Participação:

Alessandra Roscoe, André Neves e Leo Cunha

28/09

10 horas - Lar São José Casa do Candango (Sobradinho)

Leitura pública com idosos

Participação:

Alessandra Roscoe, André Neves e Leo Cunha

16 horas - Biblioteca Nacional de Brasília (Plano Piloto)

Roda de histórias e cantigas

29/09

10 horas - Escola Classe 01 (Paranoá)

Leitura pública para bebês e crianças

Participação:

Alessandra Roscoe, André Neves e Leo Cunha

Fonte: VEJA BRASÍLIA