Meio Ambiente

Unidos pela natureza

Ecovilas atraem público interessado em uma rotina sustentável e de intenso contato com o verde

Por: Clara Becker e Mariana Moreira - Atualizado em

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Vejabrasilia.com - 2344 - indice (Foto: Divulgação)

Pouco depois de se mudar para o sítio Nós na Teia, onde vive com três amigos, o estudante de biologia Lucas Miranda foi incumbido de fazer o supermercado coletivo da semana. A tarefa parecia simples. Ele passeou pelas gôndolas e escolheu aquilo que mais lhe aprazia. Voltou para casa carregado de pacotes de biscoitos, panetones e chocolates. Seus convivas, de imediato, reprovaram as guloseimas. E o ato nada tinha a ver com dietas de emagrecimento. Os produtos adquiridos por Miranda, na visão do grupo, eram mais caros, tinham fartas embalagens de plástico e propriedades pouco nutritivas. Estreante, ele ainda não sabia que sua comunidade privilegiava o consumo de alimentos orgânicos, produzidos por agricultores locais e carregados em sacolas ecológicas. Na sequência, foi advertido de que as embalagens escolhidas por ele também contribuiriam para aumentar a média de lixo da casa. Lá, antes de alguém pensar em descarte, o isopor era triturado e virava recheio de almofada, os papéis se transformavam em cinzas para as plantas, as garrafas serviam de peças decorativas e as latas ganhavam a função de vasos. Hoje, Miranda toma mais cuidado com as compras, e os quatro habitantes do local não enchem nem um saco de lixo por semana. "Esse processo de adaptação leva tempo. A gente sai da cidade, mas a cidade demora a sair da gente", diz a bióloga Luiza Padoa, uma das moradoras.

Iniciativas como a do sítio Nós na Teia, onde pessoas se reúnem para viver em comunidades de maneira sustentável, são cada vez mais frequentes no Distrito Federal. Existem pelo menos dez propriedades com perfil de ecovila nos arredores da capital. Nas visitas feitas a quatro delas pela reportagem, cai logo por terra a noção de que, em tais lugares, predominam bichos-grilos desocupados e com pouco dinheiro no bolso. A nova geração natureba foi além do modelo das aldeias hippies dos anos 70 e do grito por mais sexo, drogas e rock'n'roll. Em sua maioria, as ecovilas são formadas por engenheiros, arquitetos, biólogos, profissionais da saúde e advogados. Todos fortemente unidos na busca por um estilo de vida mais ecológico.

Foi exatamente essa meta que moveu a agrônoma Fabiana Penereiro. Ela sempre desejou morar na área rural com pessoas interessadas na causa sustentável. Há quatro anos, o sonho saiu do papel. Fabiana, amigos e conhecidos se juntaram para comprar um terreno de 82 hectares no Altiplano Leste. Desde então, o grupo de vinte pessoas já plantou 12 000 mudas nativas e iniciou uma agrofloresta, onde cultiva, sem grandes intervenções no ambiente natural, mamão, banana, mandioca e rúcula. A experiência prosperou e já chama atenção. "Somos muito assediados por pessoas que desejam conhecer o local", conta Fabiana.

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: VEJA BRASÍLIA)

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Alcançar bons resultados não é algo que dependa apenas do interesse pela vida no campo e pelo trato da terra. Gastar menos do que a natureza consegue repor, o principal mantra nessas comunidades, significa planejar bem toda a estrutura de apoio. Nesse sentido, a formatação de ecovilas costuma seguir padrões semelhantes (veja o quadro acima). Os requisitos começam em residências com material de menor impacto ambiental, adaptadas para captar a água da chuva. Nas paredes, garrafas de vidro aumentam a incidência de luz e reduzem o consumo de energia. Do lado de fora, um banheiro seco usa serragem no lugar de água, economizando os 10 litros que seriam desperdiçados com cada descarga. As preocupações continuam no trato dos resíduos. Todo o lixo orgânico vai para a composteira e minhocário, onde é transformado em adubo. De lá, volta para a horta e os viveiros que compõem o cenário.

São essas ações coordenadas que definem o que é chamado de permacultura. Criado nos anos 70 pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, o termo carrega a noção de cultura e agricultura permanentes. Além das questões ambientais, as relações humanas também integram essa filosofia de vida. Comunicação não violenta e sociocracia, método de tomada de decisão em grupo, estão presentes no vocabulário de todos que adotam a prática. Hoje, há milhares de iniciativas desse tipo espalhadas pelo mundo, principalmente na Europa e na América do Norte, onde as pessoas estão cada vez mais familiarizadas com o conceito. No Brasil, as principais experiências ocorrem em São Paulo, no Rio Grande do Sul, na Bahia e em Brasília.

O senso de coletividade é outro dos pilares fundamentais das ecovilas. Quem sente vontade de tomar um suco vai para a cozinha e prepara logo uma jarra para o grupo. Na geladeira, as comidas estão disponíveis para todos. Caronas solidárias entram na rotina e reforçam o conceito de sustentabilidade fora dos muros da propriedade. Quando há atrito, uma simples conversa ajusta pequenas diferenças na organização. Para garantir a boa convivência, no entanto, há cartazes instrutivos nas áreas de uso comum. Às vezes, a harmonia é tamanha que inviabilizaria a ideia de um Big Brother - a audiência não sustentaria o programa. "Seríamos todos nós contra as câmeras", afirma Mônica Carapeços, moradora do Nós na Teia.

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: Michael Melo)

Marcelo de Brito: no terreno que comprou com outras dezenove pessoas, todos plantam, constroem e dividem uma cozinha comunitária (Foto: Michael Melo)

Na região da Área de Preservação Ambiental da Cafuringa, há pelo menos cinco exemplos de sítios que seguem fielmente todos esses preceitos. Distante 30 quilômetros do Grande Colorado, o lugar tornou-se estratégico por margear uma das bordas do Parque Nacional de Brasília. "Fazemos uma espécie de proteção dessa área, que, por ter tradição pecuária, vivia sendo queimada para servir de pasto", diz o professor de educação física da Universidade de Brasília Marcelo de Brito. Um dos pioneiros do modelo de vivência coletiva na região, Brito comprou, há sete anos, um terreno de 40 hectares. Lá, ele é "sócio" de mais dezenove pessoas na comunidade batizada de Flor das Águas, que abriga cinco casas e uma sede dotada de cozinha coletiva. "Aqui não tem pajé nem síndico. Todos são seus representantes", afirma o professor. Até hoje, o coletivo não sentiu necessidade de estabelecer um regimento. Tudo funciona na base da amizade e a convivência, garante ele, é pacífica.

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: Roberto Castro)

O engenheiro florestal Cláudio Jacintho: mais de 1 500 pessoas já passaram pelos diversos cursos ministrados pelo seu instituto (Foto: Roberto Castro)

Em Brasília, o instituto Ipoema tornou-se o principal difusor dessa filosofia e um farol para os interessados. Referência no país, a ONG realizou mais de trinta cursos e instruiu cerca de 1 500 interessados no assunto. Quem criou o espaço, uma pequena agrofloresta de 6 hectares encravada nas proximidades do Setor Habitacional do Tororó, foi o engenheiro florestal Cláudio Jacintho. Há onze anos, ele já aplicava ali os princípios da permacultura, que conheceu na época de faculdade. O próprio Jacintho ergueu cada uma das edificações do local, exercitando sete técnicas de construção ecológica. Em cada uma delas, há muita madeira nativa - extraída do quintal - mesclada a produtos descartados por negócios estabelecidos nas redondezas. As pedras do chão, por exemplo, foram desprezadas por uma marmoraria. Hoje, além dos cursos, o instituto oferece visitas de turismo pedagógico, produção de mudas, serviço de recuperação de áreas degradadas e consultoria ecológica. Apenas o projeto Águas do Cerrado levará ao local, durante nove meses, quase 8 000 alunos da rede pública de ensino. "Apesar de ainda termos uma participação modesta na sociedade, os bioconstrutores daqui já não conseguem atender à atual procura", diz Jacintho.

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: Roberto Castro)

Mônica e o marido, o arquiteto Sergio Pamplona: a demanda por bioconstruções deu um salto a partir de 2005 (Foto: Roberto Castro)

O arquiteto especializado em bioconstrução Sergio Pamplona confirma a sensação do engenheiro. A partir de 2005, ele sentiu a demanda aumentar exponencialmente, tanto para ecovilas como em projetos menos pretensiosos. Suas obras concentram-se nos condomínios do Lago Sul, em Sobradinho e no Jardim Botânico. A clientela típica é formada por funcionários públicos ou autônomos com alto nível de instrução. Poucos pedem banheiros secos ou sistema de energia inteiramente solar. Telhados verdes têm aceitação maior. Apesar de utilizar materiais reaproveitados e insumos mais econômicos, uma bioconstrução não custa menos do que uma convencional. A mão de obra capacitada, de acordo com ele, encarece o processo. Nas conversas com interessados, Pamplona prefere não iludir as pessoas animadas com um novo estilo de vida. "Não existe casa ecológica, mas estilo de vida ecológico", diz.

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: Michael Melo)

Participantes do projeto Viver de Dentro:experiência temporáriade vida ecológica (Foto: Michael Melo)

Quem gosta da ideia de uma breve experiência num cotidiano marcado por ações sustentáveis tem a chance de executar uma espécie de test drive. O projeto Viver de Dentro, em Sobradinho dos Melos, permite que seus residentes provem, durante seis meses, uma rotina afinada com os princípios das ecovilas. A cada ciclo semestral, essa chácara de 8 hectares, composta de duas casas e ampla área verde, abre inscrições para novos moradores. O foco é pedagógico. Além de assistir a quatro horas de aulas a cada sete dias, os participantes devem trabalhar em prol da comunidade durante oito horas semanais. Paga-se um aluguel mensal de 320 reais, mais 140 para faxina e jardinagem. "Somos criados para alcançar a meta de morar sozinhos. Mesmo assim, resolvi insistir na opção de um lar comunitário", diz a bióloga Marcela Manara. Participante da temporada anterior, ela gostou tanto da vivência que optou por compartilhar uma casa quando concluiu a imersão.

Novos caminhos verdes ainda estão sendo abertos. A partir do próximo ano, Andrea Zimmermann, proprietária da chácara Toca da Coruja, no Lago Oeste, pretende abrir seu terreno para outras famílias. "Na área rural, é bom ter pessoas com um estilo mais sustentável por perto. Trata-se de uma maneira mais divertida de lidar com a vida e ajudar a natureza."

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Meio Ambiente - 2391 (Foto: VEJA BRASÍLIA)

Fonte: VEJA BRASÍLIA